Início » Adriana Minhoto » Sobre criar filhos fora do Brasil: bilinguismo.

Sobre criar filhos fora do Brasil: bilinguismo.

Quando se decide criar filhos fora do Brasil, vem à tona muitas questões, e uma das mais importantes é sobre ensinar o Português para elas. Se só um dos pais fala, por exemplo, haverá uma língua em comum em casa que certamente não será a nossa, e é nesse processo que os pequenos deixarão de aprender o idioma falado no nosso país… o que fazer?

Este mês a Adriana Minhoto, Jornalista, morando na Finlândia, mostra o que tem sido feito por lá a esse respeito, e como filhos de brasileiros estão sendo estimulados a adquirirem o Português, tudo de maneira bastante variada. Vamos conferir? Vem!

HS ELA 20151212 Elämä-juttu, lasten kasvattamisesta monikielisiksi. Domingues de Jesusin perhe Kalliossa. Perheessä puhutaan suomea, portugalia ja englantia. Perheeseen kuuluu: Sanna Edelman Domingues de Jesus (äiti), Eduardo Domingues de Jesus (isä), Francisco Edelman Domingues de Jesus (poika) ja Vera Edelman Domingues de Jesus (tytär). Kuvassa: Perhe leikki puistossa. Kuva: Rio Gandara / HS

Eduardo, brasileiro, e sua família – esposa finlandesa e dois filhos, Francisco e Vera.

Foto de Rio Gandara.

Morar fora, ser casado com uma pessoa de outra nacionalidade e ter um filho em outro país… Você já se imaginou vivendo nessa situação? Qual língua falar com as crianças em casa? Qual idioma será aprendido e usado na escola?

Pois é, mas essa é a condição de muitos brasileiros que moram fora. Como esse assunto é “dos bons”, resolvemos abordar esse tema aqui no Trololó de Mulher e tentar descobrir qual a importância de ensinar o português para crianças, filhas de brasileiros, que estão sendo alfabetizadas fora do Brasil.

Para isso, conversamos com Patricia Carvalho Ribeiro, professora de Português como Língua de Herança (PLH) e Português como Língua Estrangeira (PLE) atuando como professora na Finlândia há 10 anos; com Eduardo Domingues de Jesus, brasileiro, casado com uma finlandesa, e com dois filhos: Francisco de 13 anos e Vera de 10 anos; e com Virgínia Brilhante, brasileira, casada com um grego, e com duas filhas: Sofia de 20 anos e Nina Nancy de 7 anos. Queríamos muito saber a opinião e experiência deles, e trouxemos isso para você.

Para Patrícia, que dá aulas na Oficina de português para crianças, oferecida pelo Centro Cultural Brasil-Finlândia (subordinado à Embaixada do Brasil em Helsinque), ensinar a língua portuguesa para as crianças é muito importante por várias razões, mas principalmente para ajudar as crianças no processo de construção de sua identidade brasileira. “Nós sabemos que a língua é como um veículo que carrega em si a cultura, os valores e a identidade de um povo*. Contudo, vivendo fora do Brasil, a criança pode ter muita dificuldade de se reconhecer como brasileira e, consequentemente, falar português.”

patricia carvalho ribeiro - professora

Patricia Carvalho Ribeiro – Professora

Eduardo tem seus dois filhos no curso de português para crianças e sua opinião é semelhante à da professora. “Acho que o ensino da língua portuguesa, a língua materna dos pais de qualquer criança, seja crucial, pois é a língua do afeto também, e afeto e afinidade são os maiores ingredientes pedagógicos possíveis na motivação aprendendo um idioma.

Virgínia e o marido também consideram importante que as filhas tenham contato com a língua nativa materna e paterna. “As línguas são pontes para as culturas de onde viemos e são intrínsecas ao que somos como pessoas e pais. As línguas também fortificam a relação das meninas com nossas famílias no Brasil e na Grécia. As meninas aprendem o português e o grego através de programas formais de ensino, e também de materiais e oportunidades informais como desenhos, filmes, leitura em casa, amigos, viagens, etc.”

Temos quatro línguas em casa: português, grego, inglês e finlandês. Moramos na Escócia por seis anos quando Sofia estava em idade escolar infantil. Desde que Nina nasceu, aqui na Finlândia, usamos com ela cada um sua língua nativa: eu, português, e o pai, o Grego, ou quase nativa no caso da irmã, que é o inglês.” Sofia foi alfabetizada na Escócia na época em que viveram lá e depois em escola internacional na Finlândia. “A partir dos 13 anos ela passou a frequentar escolas somente em Finlandês. Nina frequentou creches em finlandês a partir dos 14 meses e iniciou a escola este ano (uma escola bilíngue finlandês-inglês)”, completa.

Com Eduardo acontece quase a mesma situação. “Na nossa casa todo dia falamos em português, finlandês, inglês e frequentemente italiano. Desde quando [as crianças] nasceram optamos por cada um de nós falarmos exclusivamente a língua materna de cada um, ou seja, as crianças entendem tudo em ambas as línguas, mas é claro, como qualidade, o finlandês é praticado mais do que qualquer outra língua”, completa Eduardo, que cita o italiano em sua casa, pois morou alguns anos por lá.

Crianças bilíngues, crianças do mundo

Segundo matéria publicada no jornal El País em setembro deste ano, Albert Costa, psicólogo e professor de investigação do Centro para o Cérebro e Cognição da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, explica que ser bilíngue significa, simplificadamente, aqueles que usam dois ou mais idiomas para se comunicar em diferentes graus e com diferentes competências. Para Costa, quanto antes as crianças iniciarem o aprendizado de outro idioma, melhor.

Então, a geração que nasce fora do Brasil é uma geração bilíngue. Mais do que isso, são crianças que pertencem ao mundo e não somente ao país onde nasceram, mas que sabendo a língua materna de seus pais, ganham mais diversidade cultural e oportunidades na vida adulta.

oficina de portugues

Oficina de português na Finlânda.

Para Patricia “os benefícios cognitivos do bilinguismo, a ampliação das possibilidades de atuação profissional dessas crianças no futuro, o crescimento do nosso país e também o simples prazer em conhecer e saborear a diversidade cultural brasileira através da nossa música, literatura e artes em geral são pontos relevantes na hora pensar em ensinar a língua portuguesa para as crianças”.

Por sorte, a Finlândia é um país que incentiva muito que as famílias estrangeiras continuem falando sua(s) língua(s) materna(s) em casa”, afirma Patricia. Além de a Finlândia oferecer diversos cursos extras de línguas, nas escolas as crianças também são incentivadas a aprender outros idiomas como espanhol, francês, inglês, sueco.

Eduardo afirma que ele e sua esposa sentem em casa o resultado desse incentivo na Finlândia. “Somos pais de muita sorte, além de sentirmos em casa o resultado da excelente qualidade da educação nacional finlandesa em geral, temos professores universitários de máxima qualidade ensinado o português.”

picnic da oficina

Picnic da oficina

Claro que, com todo esse aprendizado de línguas, a da alfabetização acaba sendo sempre a mais forte para a criança, a que ela tem mais intimidade. Mas o fato de conhecer outras línguas e poder se comunicar em diversos idiomas quebra barreiras na vida deles. “Não temos a expectativa que Sofia e Nina desenvolvam ao mesmo tempo as quatro línguas no mesmo nível. Sabemos por experiência que a familiaridade com as línguas varia ao longo do tempo de acordo com as vivências que as crianças vão tendo”, finaliza Virgínia.

Ainda segundo a professora Patricia, “outro aspecto importante do ensino do português no exterior é reconhecer que cada criança é uma riqueza em potencial do nosso país e pode, no futuro, atuar utilizando a língua portuguesa, em paralelo com outras línguas, para conectar cada vez mais o Brasil com o resto do mundo, contribuindo para o desenvolvimento do nosso país e a construção da nossa sociedade. Assim, a importância de ensinar português para as crianças que estão vivendo em outros países e sendo alfabetizadas em outro idioma passa pela questão da identidade e vai até outras áreas, como a manutenção da comunicação dessas crianças com seus familiares no Brasil.”

Com tantos estímulos, sendo em casa com os pais, nas oficinas de línguas ou assistindo programas e ouvindo músicas brasileiras, as crianças se sentem cada vez mais motivadas em aprender o português e se conectar com raízes que, por mais longe que sejam de sua realidade, estão em sua história de vida.

* Tifona, P.P & Aravossitas, T. (2014). Rethinkinking heritage language education. United Kingdom, Cambridge University Press.

ADRIANA MINHOTO

Mais sobre a Finlândia por Adriana Minhoto:

Como é comemorado o aniversário infantil na Finlândia?

Caso de sucesso: o enfrentamento do bullying na Finlândia.

Verdades pouco conhecidas sobre a mulher finlandesa.

Dri Minhoto, a moça bonita desgarrada em terras finlandesas, dá mais detalhes de seu dia dia no seu blog, Entre Vodka e Cachaça. Pra conhecer é só clicar aqui e se jogar! Ah! O Entre Vodka e Cachaça também tem página no Facebook, viu? Já curtiu? Eu já!

ASSINE

LOJA TROLOLO DE MULHER[2]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *