Início » Adriana Minhoto » Infância na Finlândia e Brasil: há ponto em comum?

Infância na Finlândia e Brasil: há ponto em comum?

Eu diria, bonita, que o fato de gostar de brincadeiras ao ar livre, faça chuva ou faça sol… ops… caia neve ou não, ou então, faça menos ou mais frio. Na Finlândia, você sabe, as temperaturas não são amenas. Com exceção do mês de Julho, Verão finlandês, a Friolândia é fria de “trincar os dentes”, e ainda assim a criançada se diverte. Com elas não há tempo ruim, e isso é ensinado já na primeira infância, desde que o mundo é mundo por lá. Veja um exemplo: bebês bem pequenos são colocados para dormir do lado de fora de casa, mesmo se estiver muito frio (devidamente agasalhados, claro!), para se acostumarem com temperaturas tão baixas. Ficou passada? Confesso: também fiquei. Outro ponto bastante diferente da infância na Finlândia, se comparado ao que acontece no Brasil, é o fato de que há pouco convívio com parentes. Sabe o costume que temos no Brasil de contatos familiares com tios, primos de graus distantes e até parentes de consideração? Lá não existe isso… vínculos familiares ficam restritos a pai, mãe, irmãos… e só.

Ficou curiosa para entender essa história direito, ? Este mês Adriana Minhoto nos presenteia com mais detalhes sobre o jeito de viver naquele país, nos fazendo enxergar o mundo de uma outra perspectiva. Isso é ótimo! Nós tiramos o foco do nosso próprio umbigo e vemos que há formas diferentes de levar a vida, e de ser feliz. É aquela história, ? Cada um, ou cada país, no seu quadrado… vamos nessa? Vem!

FINLANDIA-INFANCIA-CRIANÇAS

Imagem: MiikaS via Foter.com / CC BY-SA

O que faz uma criança feliz? Com certeza essa é uma pergunta muito difícil de responder. Na minha opinião, não existe uma única resposta. Para uma criança ser feliz ela precisa ser amada, acima de tudo, mas precisa de uma família, educação, amigos, ser estimulada…

Como já escrevi aqui no Trololó de Mulher, a Finlândia é um dos melhores países do mundo para ter filhos – Educação, ordem e progresso… lá na Finlândia é assim! | Se você fosse mãe lá na Finlândia… – e é por isso que vejo tantas crianças por aqui. Quando cheguei, me assustei com o número de crianças com cinco, seis anos de idade, andando sozinhas nas ruas voltando da escola ou pegando ônibus sem estarem com a supervisão de um adulto. Então, neste mês minha conversa é sobre a vida das crianças na Finlândia, com uma brasileira, casada com um finlandês, a Priscila Paiva Nisonen, que mora aqui há nove anos e tem dois filhos lindos: o Lucas de oito anos e a Maria Carolina de seis.

FINLANDIA-INFANCIA-CRIANÇAS[3]

Filhos da Priscila Paiva Nisonen, Lucas de oito anos e a Maria Carolina de seis. Ambos divertindo-se sob o frio da Finlândia, assim como qualquer criança, em qualquer parte do mundo.

Para Priscila, criar seus filhos na Finlândia, um país seguro e com pessoas honestas, elimina a maior parte dos riscos para a infância. “As crianças crescem em liberdade, sem a supervisão de um adulto em tempo integral, podem brincar na porta de casa já desde muito pequenos”, afirma. Aqui na Finlândia, a criança é estimulada desde cedo a ser o mais independente possível. “Aos quatro meses de vida as crianças começam a comer alimentos sólidos. Aos cinco anos, a criança deve se comportar, sabendo comer, tomar banho, vestir-se. Já aos sete ela é preparada para a vida escolar”, diz Priscila. “Assim que a criança aprende a sentar é colocada para aprender a usar o banheiro. Estimo que exista ansiedade em ensinar a criança a ser independente o quanto antes”, completa.

FINLANDIA-INFANCIA

Imagem: rosipaw via Foter.com / CC BY-NC-SA

Para os finlandeses, essa independência cria jovens mais maduros. Enquanto no Brasil os filhos saem da casa dos pais em média com 28 a 30 anos, na Finlândia eles saem muito cedo, em geral ao entrarem na universidade com 18 a 20 anos de idade. Em minha opinião, talvez essa independência precoce seja reflexo dos laços de família que existem aqui. No Brasil estamos acostumados a ver avós cuidando de netos, tios de sobrinhos, e a nossa relação com a família é bem extensa: avós, tios, primos, primos de segundo grau, primos de consideração e por ai vai… Aqui nas terras finlandesas, os laços familiares são mais restritos e existem apenas com a família próxima (pai, mãe e irmãos). “Conviver com tios e primos, por exemplo, pode ser considerado um privilégio para algumas poucas crianças finlandesas”, confessa Priscila.

Por outro lado, as relações de amizade são extremamente intensas e cultivadas desde a infância. Segundo Priscila, desde muito cedo, as crianças passam grande parte do seu dia rodeadas por amigos, nas creches e escolas, e no quintal de casa. “As crianças convidam seus amiguinhos para brincar em casa, sem a presença dos pais. Da mesma maneira, as festas de aniversário são organizadas somente para os amigos mais próximos escolhidos pela criança. A meu ver, tais práticas fortalecem os laços de amizade desde muito cedo e o peso adquirido por tais amizades ao longo da vida é muitas vezes maior que os laços de família.”

Em geral, é com esses amigos que, faça chuva, faça sol, caia neve ou esteja nublado, que as crianças saem para brincar ao ar livre. Não pense que aqui as crianças ficam trancadas em casa só porque está frio! “As crianças em creches chegam a passar cerca de duas horas brincando no parquinho, mesmo quando está chovendo ou muito frio (acima de -15 C) e desde cedo elas aprendem a escolher roupas adequadas para brincar”, diz. Para que se acostumem com o clima frio desde sempre, os bebês são colocados do lado de fora das casas ou nas sacadas dos apartamentos com suas roupas de inverno e sacos de dormir para as suas sonecas diárias. “Acredita-se que o ar fresco seja essencial para o bom desenvolvimento infantil e que as crianças precisam desde cedo acostumar-se com o clima”, completa Priscila. E eu sou testemunha disso, pois seja qual tempo e temperatura que estiver lá fora, sempre vejo mães/ pais passeando com seus filhos, seja a pé ou em carrinhos.

FINLANDIA-INFANCIA-CRIANÇAS[2]

Imagem: samikki via Foter.com / CC BY-NC-ND

Ainda segundo Priscila, além dos hábitos considerados excêntricos para alguém nascido no Brasil, como deixar recém-nascidos dormindo ao ar livre no inverno polar, os costumes passados de geração para geração são um tanto diferentes dos nossos. “As crianças são respeitadas como indivíduos desde pequenas e podem escolher quando querem comer ou que tipo de “hobbies” querem praticar; têm o direito de ir e vir podendo andar livremente pela vizinhança acompanhadas de seus amigos da mesma idade. A presença dos pais pode ser constrangedora para a criança.” Uma curiosidade que a Priscila nos confidenciou é sobre o tratamento dado aos garotos e garotas. “Ser criança na Finlândia é ser tratado como alguém sem nenhum conhecimento sobre a vida, que ainda precisa viver muito para poder conquistar os mesmos direitos dos mais velhos.”

As crianças aprendem o seu lugar desde muito cedo, respeitando os mais velhos e muitas vezes interagindo, em grande parte, somente como outras crianças. Este distanciamento causa certa timidez em muitas delas ao interagir com adultos e também limita a autoconfiança que é construída na infância. Muitas crianças são incapazes de sorrir ou conversar com adultos desde muito pequenas, ocupando a posição de criança que lhe foi destinada no seu meio social.”

Na Finlândia, ao mesmo tempo que as crianças são criadas para serem logo adultos maduros, não são incentivadas ao consumismo e sabem escolher o que querem vestir e comer, elas não têm voz ativa com os adultos. Devem ser “mini-adultos”, mas são tratadas apenas como crianças, que ainda tem uma longa caminhada pela frente nessa jornada que se chama vida. Com esse pensamento, é comum os pais fazerem viagens sem as crianças e saírem com os amigos para se divertir. “Altruísmo pelos filhos não é visto como virtude. Assim que atingem a idade adulta os filhos, que foram criados para o mundo, precisam aprender a caminhar por si mesmos, e esse treinamento começa desce o primeiro ano de vida da criança”, finaliza Priscila.”

ADRIANA MINHOTO

Entenda como tudo começou:

As voltas que a vida dá nos leva a lugares inimagináveis!

Mais sobre a Finlândia, por Adriana Minhoto:

Dri Minhoto na Finlândia: pausa pra reflexão.

Por que o sistema de saúde pública na Finlândia funciona?

Serviço doméstico na Finlândia: quem cuida disso?

 

Dri Minhoto, a moça bonita desgarrada em terras finlandesas, dá mais detalhes de seu dia dia no seu blog, Entre Vodka e Cachaça. Pra conhecer é só clicar aqui e se jogar! Ah! O Entre Vodka e Cachaça também tem página no Facebook, viu? Já curtiu? Eu já!

ASSINE!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *