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Vale a pena matricular sua criança numa escola bilíngue?

O inglês é uma língua que está presente cada vez mais no nosso dia a dia, e isso não há como negar. Além do mais, a gente bem sabe que para assumir inúmeras posições de trabalho é preciso conhecimento dessa língua estrangeira. Dessa forma, é bem difícil os pais resistirem a tentação de colocar as crianças o mais cedo possível em escolas bilíngues, porque pais sempre querem o melhor para suas crias, e poder facilitar o seu desempenho profissional lá no futuro é um desses desejos.

A questão é: até que ponto isso é bom de verdade para sua criança? Será que não estamos apenas indo com a “onda das escolas bilíngues”, sem questionar se vale a pena apresentar uma segunda língua tão cedo para essas crianças? Na dúvida, já que sou mãe e quero pensar essas questões com você, consultei uma profissional no assunto. Eu conversei com a Bruna Alves, que é Psicopedagoga Clínica e Pedagoga, e atua profissionalmente nas cidades de Limeira e Campinas (SP), que me esclareceu diversas dúvidas e que podem, felizmente, nortear nossas decisões quanto á educação dos pequenos. ´Bora ver?

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Imagem: The New York Times

Trololó de Mulher >>> Se o processo de aprendizagem torna-se eficiente se houver significado para a criança, aprender a língua inglesa, por imersão no dia a dia, seria mais fácil e prazeroso para ela?

Sim, desde que a imersão não seja “forçada”. Essa imersão tem que ocorrer verdadeiramente. Não adianta a escola se propor a realizar a vivência de uma outra cultura, se fora do ambiente escolar (ou, às vezes, fora da aula de Inglês) a criança não puder estabelecer um link dessa cultura com sua realidade. Por isso é que o aprendizado bilíngue só é realmente eficaz para crianças de famílias que vivem em outros países ou em casos em que um dos pais é estrangeiro, por exemplo. Caso contrário, cairemos na mesma questão, já debatida tantas vezes, do ensino que foge da realidade da criança e acaba não fazendo sentido para ela.”

TM >>> Hoje em dia o inglês é fundamental, muitas vezes, para uma boa colocação no mercado de trabalho. A chance que uma criança teria de se tornar fluente mais rápido justifica colocá-las tão cedo nessas escolas?

Não. A criança terá muito tempo para aprender um novo idioma. Escolas sérias de idiomas conseguem fornecer o aprendizado de outra língua em, aproximadamente, quatro anos. Uma criança que inicia o estudo do Inglês, por exemplo, com 9 ou 10 anos, aos 15 anos estaria com uma base suficiente para vivenciar um intercâmbio, realizar provas de proficiência, etc. Não há nada que justifique iniciarmos tão precocemente o ensino bilíngue.”

TM >>> Uma criança bilíngue pode ser mais comunicativa, seja de forma oral ou escrita, do que uma criança monolíngue?

Não há relações entre esses fatores. O único ponto é que as crianças bilíngues apresentam um conhecimento específico diferenciado das demais exclusivamente nas questões que envolvem o outro idioma. E, esse conhecimento, se não for atrelado às reais experiências de vida da criança, não há razão para existir. Se observarmos os aspectos da escrita, o ensino bilíngue pode até ser prejudicial para crianças em fase de alfabetização. Isso ocorre porque o Português Brasileiro, por exemplo, é classificado como uma língua semitransparente, ou seja, a relação entre os sons e as letras são, praticamente, regulares (a letra U tem sempre som de U). Esse aspecto, facilita a compreensão, por parte da criança, do sistema alfabético. Já o idioma Inglês é considerado irregular, ou seja, letras iguais podem apresentar sons diferentes (como a letra U em uncle e em university, por exemplo). Dessa forma, fica mais difícil para a criança compreender o sistema de escrita, podendo ocasionar inúmeras dificuldades. Sem contar que a gramática também é diferente, ao estruturarmos uma frase, por exemplo. Por isso, as escolas que se propõem a trabalhar com a metodologia bilíngue devem tomar muito cuidado para não causar mais ônus do que bônus às famílias e, principalmente, às crianças. Não dá para simplesmente adquirir um material apostilado bilíngue, cumpri-lo durante o ano letivo e aumentar a carga horária apenas das aulas de Inglês. É necessário que todos os professores (não só o de Inglês) estejam familiarizados com o idioma e com a cultura da outra língua, apresentando um olhar diferenciado a erros relacionados à comunicação escrita e oral que irão surgir, pautando a correção dos mesmos de forma que não prejudique o processo de aprendizagem da criança.”

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Imagem: Pinterest

TM >>> Aprender outra língua e, por tabela, sobre outras culturas, prepara melhor a criança para lidar com diferenças?

Não, necessariamente. É apenas mais uma das estratégias para que isso aconteça. As questões sobre o respeito às diferenças vão além do fato de conhecer outras culturas. Primeiro, tínhamos que preparar as crianças para lidarem com as diferenças entre aqueles que falam o mesmo idioma e, infelizmente, estamos longe disto. No Brasil, que é um país de proporções continentais, podemos observar preconceitos entre regiões como, por exemplo, a avalanche de insultos e frases preconceituosas que invadiram as redes sociais contra os nordestinos (na maioria, por parte de adolescentes e jovens), após a vitória da presidente na última campanha eleitoral. Se não somos capazes de respeitar diferenças, apesar de tantos aspectos que nos unem, não seremos capazes de lidar com diferença alguma.”

TM >>> E quanto ao distanciamento da própria cultura brasileira, isso é possível numa criança educada em inglês?

Se ela estiver morando em um país de língua inglesa e se os pais abdicarem dessa cultura, sim.”

TM>>> Para quem deseja matricular sua criança numa escola bilíngue, o que é importante observar?

O ideal seria que as escolas que adotam a metodologia bilíngue iniciassem esse processo a partir do 6º ano do Ensino Fundamental, após a criança aprender toda a gramática, ortografia e demais especificidades da língua portuguesa. Até o 5º ano, por exemplo, a língua é importante, inclusive para compreensão de outras áreas do conhecimento, como a linguagem matemática: sabemos que a mudança de uma vírgula no enunciado de um problema pode alterar a maneira de solucioná-lo. A criança precisa estar com o alicerce bem preparado em sua língua materna (ou a língua do país em que mora) para poder ter a autonomia de adquirir os conhecimentos linguísticos de outros idiomas. Infelizmente, as escolas que adotam o ensino bilíngue, já o iniciam desde a Educação Infantil, dificultando a opção dos pais por essa alternativa. Independente da série, os pais devem observar se todos os professores e funcionários da escola são fluentes em outro idioma, para que o aluno realmente possa vivenciar uma experiência bilíngue. De nada adianta a criança aprender com a professora de Inglês “como pedir para ir ao banheiro” e a professora de matemática não compreender ou não responder no mesmo idioma. Esse preparo também deve ser observado, principalmente, nas séries iniciais, na correção dos erros da escrita em avaliações, por exemplo. Os pais devem questionar como será corrigida uma resposta em que seu filho se confundir no idioma e escrever em “portinglês”, porque, se a proposta da escola é que os alunos sejam aptos em duas línguas, não podemos considerar como erro o uso de dois idiomas, mesmo que a ocasião solicite o contrário. Os pais devem estar atentos se a proposta bilíngue não se trata apenas de um chamariz ou de uma alternativa para encarecer o valor da mensalidade, pois, volto a repetir, não é só aumentar a quantidade de aulas semanais de inglês, em detrimento de outra disciplina. Se o ensino bilíngue se resumir a isso, é mais vantajoso matricular a criança numa escola de idiomas no período oposto da escola.”

BRUNA ALVES-PSICOPEDAGOGA-PEDAGOGA-LIMEIRA-CAMPINAS-SP

A Bruna também é blogueira, e edita o excelente “Como eu Aprendo”, um blog criado para apresentar e discutir questões ligadas a aprendizagem. Atualmente, Bruna tem prestado atendimento psicopedagógico para crianças, adolescentes e adultos, em ambiente clínico, e atuado como coach para educadores, nas cidades de Limeira e Campinas. Para todas as informações sobre como encontrar seu consultório, telefones, e-mails, etc., visite seu blog, clicando aqui, acompanhe suas atualizações e saiba tudo. Ah! Nossa consultora também tem página no Facebook, por onde você também pode se manter muito bem informada sobre tudo o que essa moça tem a nos dizer. Conheça, curta e informe-se!

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Um comentário sobre “Vale a pena matricular sua criança numa escola bilíngue?”

  1. Ricardo comentou:

    Eu discordo da opinião da psicopedagoga.

    Eu viajei por 8 países asiáticos, e em TODOS eles observei um grau de fluência enorme no idioma inglês por parte de crianças menores de 10 anos de idade. Lembrando que na maioria desses países o sistema de escrita é completamente diferente do nosso.

    Na Malásia e em Cingapura, por exemplo, a maioria das crianças de ascendência chinesa sabem falar chinês, inglês e malaio. Chinês é o idioma cultural e de família, Malaio é o idioma nativo desses dois países e Inglês é um dos idiomas oficiais e usado amplamente.

    O prolema do nosso continente como um todo é ver o aprendizado de outro idioma como um luxo, voltado a pessoas ricas e/ou de maior inteligência, quando o fato é que esse aprendizado é apenas um estimulo a mais para o nosso cérebro, que é capaz de realizar essa tarefa sem grandes dificuldades.

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