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“Se eu não lutasse, se eu não tivesse fé, não teria aguentado até aqui”

Manuela foi diagnosticada com câncer de mama aos 28 anos. Embora já sentisse o nódulo há algum tempo, achou que fosse leite empedrado, e demorou a procurar ajuda. Naturalmente, a doença acabou evoluindo e, após tratar esse câncer inicial, ele avançou pelo corpo, comprometendo, inclusive, sua mobilidade.

“Eu era uma mulher indepedente, hoje dependo da minha mãe pra tudo, raramente estou bem o suficiente pra fazer minha própria comida (por exemplo).”

Hoje, aos 31 anos, namorando e apaixonada, Manu continua tocando sua vida cheia de desafios. Mãe de um menino de 8 anos, ela encontra forças para continuar lutando sem fraquejar. Admite que por vezes se revolta, lamenta planos interrompidos, mas não deixa que isso seja algo determinante em sua vida. Manuela é a prova mais contundente de que problemas na vida todos temos, evidentemente com graus diferentes de gravidade, e ficar triste por eles é normal e humano, mas ficar no chão por isso? Manuela quer mostrar para você que não precisa ser assim… e com ela não tem sido.

Bicha Fêmea > O que passou pela sua cabeça quando soube da doença?

“Vou morrer. O índice de câncer na minha família paterna é alto, foi a primeira coisa que pensei: tenho um filho de 6 anos e vou deixa-lo órfão como meu pai me deixou.”

SAÚDE-SAÚDE DA MULHER-CÂNCER DE MAMA-COMPORTAMENTO-COMPORTAMENTO FEMININO-SUPERAÇAO-MANUELANYGAARD

Bicha Fêmea > O tempo passou, você seguiu com o seu tratamento para o câncer de mama e…você soube que a doença evoluiu de outras formas em seu corpo. Em algum momento você se revoltou?

“O tempo inteiro eu me revolto. Meu corpo não responde ao tratamento. As chances estão esgotando. E ainda escuto”você tem que ter fé” “você tem que lutar” “você tem que querer”. A vontade que dá quando escuto isso (muitas vezes de pessoas próximas) é de mandar trocar de lugar comigo e ver como é. Se eu não lutasse, se eu não tivesse fé, se eu não tentasse não teria aguentado até aqui.São muitas dores e limitações, minha vida foi completamente paralisada. Eu era uma mulher indepedente, hoje dependo da minha mãe pra tudo, raramente estou bem o suficiente pra fazer minha própria comida (por exemplo).”

Bicha Fêmea > Como sua família lidou com sua doença e as consequências dela?

No inicio tentaram levar naturalmente. Meu filho foi o que mais me surpreendeu com a maturidade e responsabilidade. Ele lida muito bem, apesar de ter apenas 8 anos. Me ajuda, apoia. Faz coisas simples como trazer um lanche pra mim, ou respeitar o silêncio (que é algo que eu tenho necessitado e valorizado demais). Minha mãe é muito forte, ajuda muito além do que poderia ajudar, mas tem os momentos em que tenta ignorar / fugir da realidade, como muitos pacientes mesmo fazem. Eu sou hiper realista. Se estou paralisada por uma lesão eu não fico me enganando dizendo que é o tempo frio, eu sei que é a lesão que está me paralisando e ponto. Me medico e enfrento a dor até ela passar. É mais fácil fugir da realidade do que enfrentá-la. Muitos fazem isso com superstições, fé, rituais… eu tento ser realista e não me enganar achando que porque uma compressa de água quente aliviou minha dor eu vou poder sair andando por ai… sei os meus limites e respeito.”

Pra quem me vê fica a lição da persistência, de não cair. Não caio mesmo, não. Dói, machuca, é difcil, mas me levanto, não fico no chão.”

Bicha Fêmea > Apesar da doença e os tratamentos dolorosos para o corpo, você não se isolou. Você esteve presente na blogosfera [Era uma vez um câncer…], redes sociais e eventos na sua cidade, esbanjando vontade de viver. A vida continua?

“Tento viver o máximo que posso. Depois do câncer me divorciei. Por causa da paralisia das pernas e lesões na coluna não consigo sair de casa como gostaria de sair, mas sempre que posso saio. E ás vezes me isolo, sim. No início desse ano tive uma crise forte de depressão porque me isolei demais. Precisei de ajuda pra me recuperar. As pessoas acham que sou forte mas não sou, sou frágil e preciso da ajuda e contato dos outros pra me manter firme. Uma mudança na minha vida é que hoje eu procuro não fazer mais planos. Hoje estou namorando novamente. Apaixonada, se fosse há 10 anos eu já estaria fazendo cartas kilométricas com frases de amor, escolhendo nomes pros filhos, essas coisas… toda canceriana é meio assim neah… mas hoje eu sou mais pé no chão, na paixão, na vida, em tudo. Continuo vivendo, mas tento enxergar que as pessoas não são obrigadas a estar ao meu lado, a se limitar por causa de mim e respeito isso.”

Bicha Fêmea > O que tem ficado dessa experiência toda?

“Pra mim fica a dor. Perdi minha vida, perdi a oportunidade de ter uma carreira, de seguir minha vida como sempre sonhamos quando criança. Pra quem me vê fica a lição da persistência, de não cair. Não caio mesmo, não. Dói, machuca, é difícil, mas me levanto, não fico no chão. E sei que isso ajuda quem está de fora olhando. Tem um monte de gente cruel por ai que não está nem ai, fala e faz coisas horrorosas, eu passei e passo por isso. Nós mulheres que passamos pelo câncer (de mama, especialmente) estamos fadadas a enfrentar gente assim o tempo todo. São maridos, irmãos, mães… O que posso dizer? Ignorem! Se não têm sensibilidade pra lidar com você e sua dificuldade, então que saiam da sua vida. Não perca tempo com bobagens. A vida é muito curta. Hoje você está bem, andando, pegando um ônibus e indo pra qualquer lugar. Amanhã pode estar numa cama usando fraldas e tomando morfina pra diminuir a dor. Viva sua vida ao máximo, não perca tempo com futilidades, não deixe pra amanhã o que pode fazer hoje. Eu esperei casar e ter filhos pra depois construir carreira. Hoje não posso mais trabalhar, nunca serei a advogada ou administradora que queria ser. Sonhava quando meu filho tivesse grande ir pra Fernando de Noronha aprender a mergulhar. Hoje tenho a coluna fraturada, não posso nem em sonho fazer algo assim. Durante o inicio do tratamento eu sonhava em operar logo pra comprar uma bicicleta e voltar a pedalar. Hoje não posso mais subir em uma bicicleta. Não espere pra fazer amanhã o que você pode fazer hoje. Mais vale uma lembrança do que um arrependimento.”

 

 

 

7 comentários sobre ““Se eu não lutasse, se eu não tivesse fé, não teria aguentado até aqui””

  1. Paula comentou:

    Esta reportagem é muito interessante, pois mostra o que é viver sem falsos realismos, nos fazendo assim pensar sobre/e aturar os fardos que aparecem na vida, bem como deixar de lado aqueles que não estão para nos aturar ( pois não estamos para os aturar também!) e que deixam-nos mais cabisbaixos, tem uma frase popular que costumo pensar comigo: Se não é tu, é tu mesma.

    Esta menina apesar do percalço que lhe apareceu é forte sim, os outros que a dizem para ter fé e força, são eles que precisam, pois digo em frente Manuela, pois ainda estás viva, tem dias maus e menos maus, mas ajudas muitos despreparados para a vida deixarem de mesquinharias e viverem o planejado sem medo, obrigada por dar um pouquinho de sua vivência. E agradeço a Lidiane por dar-me a oportunidade de conhecer pessoas verdadeiras.

    Abraços,
    Paulinha

    1. Lidiane Vasconcelos comentou:

      Quando eu pedi a entrevista a Manuela, sabia que seria muito importante na vida de outras pessoas.
      Que bom que atingi meu objetivo. =)
      Obrigada pelo retorno, Paula.
      Beijos,
      Lidi

  2. Ly Mello comentou:

    Manu pra mim é exemplo em vários aspectos e ela sabe bem disso. Ela não vem lutando na vida desde a descoberta do câncer, a luta dessa guerreira veio muito antes, e tenho certeza que serviu para que o câncer fosse enfrentando com muito mais garra.
    Manu sabe que cair faz parte, desesperar faz parte, e quem não agiria assim? Mas continua vivendo intensamente como se não houvesse amanhã, que na verdade, é o que todos nós deveríamos fazer, afinal de contas, quem sabe o dia de amanhã?
    Beijos.

    1. Lidiane Vasconcelos comentou:

      Pois é, Ly, ninguém sabe o dia de amanhã. Isso deixou de ser clichê e se tornou um norte para a forma como encaro a vida, me comporto e procuro melhorar minhas atitudes quando perdi minha irmã, de repente, em 2005.
      Beijos,
      Lidi

  3. Alessandra Ramos comentou:

    Não me conformo com o descuido que muitas vezes temos com a gente. Não estou culpando Manoela. Mas acho que devemos ouvir e entender os sinais que nosso corpo emite.

    alguns anos atrás tive que repetir um ultrassom em menos de 1 mes e pra minha surpresa em tão pouco tempo apareceu um pólipo grande o bastante para fazer uma cirurgia rápida ( em um mes tive que fazer todos os exames complementares e cirurgia).
    Desde então passei a ir ao ginecologista duas vezes ao ano, e em 2013 mais uma vez um pólipo foi detectado, mais uma cirurgia.
    E esse ano apareceram cistos benignos (vou fazer a punção no fim do mes) e a mastologista já preveniu que devo ir duas vezes ao ano e já fazer mamografia, tenho 38.
    Tenho amigas que falam que sou hipocondríaca, e discordo já que não quero, e não busco doença,. O que não quero é permitir que a doença se instale no meu corpo, caso ela exista!

  4. Telma Maciel comentou:

    Sabe o que gosto da Manu? Que a vida dela não é pintada de cor de rosa. Muitas vezes as pessoas acham q precisam pintar, mas ela dá a cara a tapa, posta suas dores e dificuldades, suas raivas e tbm suas alegrias. É, sim, um exemplo. É uma guerreira realista. E eu adorei a entrevista, principalmente a última pergunta pois, de um jeito um pouquinho diferente (mais ‘tapa na cara’) ela fala de novo o famoso ditado “não deixe pra amanhã o q vc pode fazer hoje”… IMPORTANTE! Curti demais!

  5. Kátia Pinheiro comentou:

    Acompanho a Manuela pelo FB, é uma guerreira admirável.
    Ao fim da entrevista ela disse tudo…apenas VIVA e esqueça todos os mimimis que gente chata q vive ao nosso lado insiste em nos fazer engolir.
    A Manuela é frontal, realista….com ela nao tem meias palavras. parabéns Manuela por esta força e que vc continue sempre assim firme e forte. Bjs

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